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Roteiro por Buenos Aires
No final do outono de 2006 eu decidi realizar uma viagem sozinha. Não coloquei uma
mochila nas costas e nem pedi carona, já que não tinha tempo para os imprevistos de uma
‘‘mochilada’’ e, acima de tudo, era uma moça com seus 19 anos e, portanto, não me
animaria e nem teria coragem de enfrentar as estradas do sul da América sozinha. Assim,
de ônibus, saí de Santa Maria e fui até Uruguaiana. Por não me informar sobre os horários
de ônibus da cidade fronteiriça do Rio Grande do Sul, eu cheguei na simpática e deserta
rodoviária de Uruguaiana e tive que esperar longas dez horas para o próximo ônibus. Os
taxistas e a trabalhadora da lancheria disseram que se eu atravessasse a ponte, e me
dirigisse ao centro da cidade argentina de Paso de los Libres, eu pegaria um ônibus mais
barato para Buenos Aires. Mas por ser inexperiente e ter receio, acabei ficando na
rodoviária. Foram mais de oito horas de conversas com os taxistas e com os cambistas, que
estranhavam uma moça viajar sozinha e sem nenhum objetivo concreto.
Pela madrugada, consegui um ônibus para Buenos Aires. Estiquei as pernas e, bem feliz, me espreguicei no banco semileito. Como existiam poltronas livres eu praticamente fiz uma cama e somente acordei pela manhã, por volta das 9 horas, quando chegamos num posto argentino para abastecer e para os passageiros comerem. Nesse ônibus fiquei amiga de um cabeleireiro santista e de um norte-americano que estavam indo para a capital portenha. O brasileiro necessitava de um tempo após o término de um longo namoro e o norte americano estava, em suas palavras, conhecendo o melhor da América Latina.
Quando chegamos na imensa rodoviária de Buenos Aires o tempo estava nublado, e tomamos o mesmo táxi para San Telmo, um dos bairros mais charmosos e antigos da capital. Nos despedimos, pois eu já tinha reserva no Hostel El Aleph que, para os mochileiros de primeira viagem e que viajam sozinhos, eu não recomendo. Fiquei zanzando pelas acomodações do hostel por umas duas horas, até deixar o dinheiro referente à diária no que era para ser uma recepção – e estava vazia – e um bilhete, escrito num papel reciclado, explicando que estava procurando outro tipo de lugar.
Então comecei uma aventura buscando o hostel em que os companheiros de ônibus
estavam. Eu só sabia seu nome: Che Lagarto. E o melhor, ficava no mesmo bairro. O bairro
San Telmo tem uma feira interessantíssima que ocorre aos domingos, não há como perder.
Umas duas horas depois eu já estava cansada de puxar a mala com rodinha pela calçada
com desníveis e acabei achando o Che Lagarto: bonito, moderno, jovem e com a decoração
maravilhosa. O preço? O mesmo que El Aleph, que mais parecia um amontoado de beliches
um por cima do outro.
O meu roteiro na cidade foi simples: deixar acontecer. Fui conhecendo pessoas de várias
nacionalidades: europeus, australianos, argentinos e chilenos. Com eles eu arrisquei inglês e
falei muito espanhol – e às vezes portuñol – e bebi as tão famosas cervejas de um litro (que
só em 2008 chegaram no Brasil), alimentei-me basicamente de fatias de pizza que custavam
1,25 peso, comi fartamente no café da manhã, que era de graça no hostel, para não ter que
almoçar e andei de metrô pela primeira vez. Não se espantem, eu sou uma provinciana, uma
guria latino-americana do interior e com pouco dinheiro no bolso. Na minha cidade, Cruz
Alta, interior do Rio Grande do Sul, não havia nem necessidade de andar de ônibus, já que
era pequena e concentrada.
Uma dica para os viajantes: Buenos Aires tem metrôs muito baratos e linhas que te levam
para todos os cantos, até mesmo para a gare do trem, onde tu podes ir à grande Buenos
Aires e também ao interior. Andar de táxi eu somente recomendo se for dividir com seus
novos amigos, não que seja caro, mas o metrô compensa. Outra dica turística é andar. Buenos Aires merece ser vista a pé, e
vale uma visita à Livraria Atheneo, onde aconteceu o show de rock que fui ver – a banda Anathema, à Recoleta, ao
Museu de Belas Artes e ao Palermo. Se você pensa em ir para o cemitério onde a Evita está
sepultada esperando um mausoléu do tamanho de uma casa, não vá. Ele é simples e
facilmente passaria despercebido.
O melhor que fiz nesses dias foi comprar um guia turístico e com os nomes das ruas de
Buenos Aires, e também foi provar os chocolates deliciosos de lá. Os alfajores são ótimos e
nos dias em que me permiti uma regalia gastronômica a culinária italiana foi a melhor
escolha que pude ter.
Há importâncias históricas fundamentais. Se você for a Buenos Aires e não ir à Praça da
Casa Rosada, ao meu ver, perdeu 50% da viagem. Lá é onde você poderá entender um
pouco da sociedade argentina, pois ao seu redor as paredes e monumentos falam e há
reivindicações escritas, há manifestações, não somente de jovens e trabalhadores, e sim de
avós e mães. Pessoas com os sentimentos feridos e a memória desperta, pessoas que
colocam em punho o retrato do seu ente desaparecido ou de seu morto na ditadura militar
argentina. Esse não deve ser encarado como um ponto turístico e sim como a testemunha de
uma realidade social.
Não deixe de visitar o Caminito, um ponto turístico exemplar, mas se tu estiveres em San
Telmo, não faça que nem eu, que fui a pé. Oitenta centavos para um ônibus agora me
parece muito mais proveitoso do que três horas perambulando pelas ruas porteñas.
Obviamente eu cheguei ao Caminito, mas tão exausta a ponto de somente me sentar no
meio fio e praticamente tirar uma soneca. Voltei de ônibus.
Para concluir, a dica é não ser um turista, não seja o foco principal, apenas se deixe
misturar à multidão de pessoas na Avenida 9 de Julho. Não encare a viagem como um
passeio necessário para sua mente descansar. As viagens, e nelas eu encaixo Buenos Aires,
é para nos fazer conhecer outras realidades e perceber os latino-americanos em cada ponto,
assim como é possível voltar com a cabeça tão confusa, mas com um saturamento
interessante e construtivo. Não volte de Buenos Aires com um souvenir barato e comprado
nas ruas. Essa cidade merece mais. Viva-a e apenas deixe ela te guiar e lembre-se, esteja
sempre com os olhos abertos para os acontecimentos e pessoas. É uma cidade viva e tu
mereces vivê-la ao máximo.
Júlia Schnorr é de Santa Maria (RS) e escreve no blog Catherine de Jupiter e
twitter.com/juliatengoganas
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